Ela tinha os olhos incrustados por lágrimas antigas que salinizaram o seu ver. Não importava mais estar sozinha, ela conseguiu se tolerar, mesmo com as contradições reveladas para si.
Sentada no sofá solteiro de sua sala, esperava com certa ansiedade a visita do sol, que cobria sua pele gasta com delicado torpor, permitindo-se ver refletida na televisão desligada e notar o presente de seu filho caminhar em sua direção.
O angorá por vezes lhe fazia uma visita interesseira, o desconforto do taco era maior do que as pernas ossudas de sua dona. O afago era bem vindo, mas era um lucro menor e sem perspectivas.
Sua vida estava no fim, não por especulação e sim por sentido. Todos os seus interesses estavam mortos e todos os seus deveres estavam feitos. Ela não estava insatisfeita e isto a entristecia. Pois há tempos não sentia o gosto suave e alcoólico da esperança.
Seu único filho estava longe, sua mulher e filhos falavam outra língua. Em seu aniversário, foi difícil entender a felicitação do neto, prejudicada pela má audição e pelo forte sotaque malaio.
Ela já sentiu saudades, hoje em dia percebe a indiferença erodir este sentimento. Só o amor continua guardado numa caixa de antiguidades ao sopé do coração, mas ele está bem trancado pelo rancor instintivo e não permite o cheiro mofado da nostalgia.
Às vezes se pergunta por que Deus não interrompe sua respiração, e não sabe de onde vem a covardia de morrer. Não que se importe, mas talvez por receio de sentir o desconforto que antecede o fim da linha. Torce para que ela chegue na hora dos sonhos e a deixe viver na casa de sua infância ao lado de seus irmãos mais velhos e de seus pais dedicados.
Eu vivi bem... contesta no saldo de sua vida. Amou e foi amada, só está um pouco chateada pela falta de convidados no velório, graças ao seu centenário adquirido. Já se perguntou várias vezes se esta foi uma troca justa. Gostaria de saber que pessoas chorariam em sua despedida. Sempre imaginou que não viveria tanto e por vezes viu seus irmãos enfrentarem os santos pelo custo de seu adeus. Ah que doce gosto esta dor lhe daria !!
“Bem, cá estou eu”, pensa num fim de tarde, e por fim se deixa debulhar em lágrimas pelo fim de sua obra ...
quinta-feira, 29 de maio de 2008
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2 comentários:
Adorei!! Parabéns! Que esse seja o primeiro de muitos "devaneios" seus!!
Por que das hist�rias tristes saem os melhores poemas?
Gostei muito.
Bj�o!
Jamille
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